Perfil de conflito oriente-ocidente mascara violência de política e cultura desumana
Vladimir Putin é bem desses políticos que usam do ataque, seja qual for, legítimo ou não, para desviar a atenção dos seus críticos quando sabe que o erro está mesmo na raiz de sua conduta cruel e desumana. Após uma tumultuada eleição, contestada em toda parte pelos cidadãos russos – cujas manifestações são reprimidas sutil e eficazmente em todos os locais em que se realizam (Putim conseguiu a relação 1 para 1: para cada manifestante arrumou um agente policial e da maldita ex-KGB, presente e vigilante, num total de 50.000 capangas!), e a contestação legítima feita pelos EUA, em vez de demonstrar a tão esperada lisura em um já cambaleante processo de “democratização” da Rússia, Putin partiu esta semana (noticias de 15.12.2011) para o ataque. Acusou o governo americano, daquela nação que lhes deveria servir de exemplo por ser a maior e mais duradoura democracia do planeta, de ter apoiado o assassinato de um ditador, o malfadado tirano líbio. Antes de dar isso por mais uma farpa pontual entre poderosos, vale lembrar que por traz da peleja existe uma verdadeira guerra cultural, instigada ao extremo por forças políticas que perduram no poder por mais de 80 anos. Tudo com a cumplicidade de ex-pelegos do comunismo, no sentido de contrapor radicalmente ocidente e oriente. Apesar dos flagrantes interesses da classe burocrática estatal, a fundamentação teórica ainda é capitaneada por epígonos da intelectualidade marxista como o Sr Alexandre Duguin (vejam debate Olavo de Carvalho versus Duguin na internet...), que inacreditavelmente apela para “tradições” ortodoxas, para dar exemplo de autêntica “espiritualidade”.
Enquanto isso, em nosso próprio meio ocidental, um outro Vladimir, tupiniquim, valendo-se de cultura filosófica, Sr. Vladimir Safatle, demonstra ignorância, senão conveniência, para com o clima de hostilidade crescente no mundo, ao criticar duramente nossa cultura e espiritualidade, baseada nos valores cristãos. Enaltece a cultura e costumes do século V a.C. com relação a política e ao trato com os estrangeiros e falta com a verdade ao enaltecer a cordialidade dos gregos pré-socráticos com aos não nativos. O verdadeiro mérito foi posterior, a partir de Sócrates (século IV): ao fundamentar-se a moral pessoal, do ser agente, de um agir responsável, como melhor atitude para com o estrangeiro e claro, com o nosso próximo. O que levou aos excessos do controle estatal foi justamente a transferência dos autocontroles, pessoais, em nível de consciência, magistralmente evoluídos na tradição cristã, para controles externos, regulamentares e policialescos. O atual “sentimento de mal estar e sofrimento indefinido, denunciado por Freud”, provém do individualismo exacerbado do homem moderno que se fecha como sujeito auto-suficiente e interesseiro e, nessa condição pouco viável diante da complexidade das relações humanas, passa a enxergar no outro uma ameaça ao seu status quo. Como lacaniano, o professor de filosofia da USP deve conhecer muito bem as bases teóricas de Lacan que, como seguidor de Freud mais freudiano que o próprio pai da filosofia clínica, ao contrário de outras correntes mais flexíveis, queria explicar o comportamento humano como o de indivíduos hermeticamente fechados em seus próprios interesses pessoais, egocêntricos, travando diálogos de surdos com todos os demais, dados por externos e dicotômicos.
A fundamentação de tal diálogo não é de complementação e subsidiaridade, mas de rupturas entre o sujeito e o seu meio circundante, mormente hostil. Baseia-se, por exemplo, na teoria da linguagem de Suassure em que o uso de símbolos não visam remeter a uma realidade que possa superar a do sujeito pensante, realidade que procura representar, e sim de um significado que apenas se torna meio de entender o próprio significante, o sujeito que pensa e apenas por isso mesmo existe e compreende o mundo como uma espécie de extensão mecânica de si mesmo, como o observador das bactérias por traz de um microscópio curiosamente medindo a res extensa (sempre um metron quantitativo). Ou no estruturalismo de Strauss, em que a estrutura do real fica ossificada em colunas de regras consolidadas pela história em resposta inevitável às leis implacáveis da natureza animal e cosmológica... Nessa perspectiva o homem somente pode enxergar a cultura como uma construção hostil, modelada pelos cosmos ou por superestruturas do inconsciente que por sua vez modelam as pobres e indefesas consciências, tanto faz se do ocidente ou oriente.
Como um homem tão volúvel a forças não conscientes e determinísticas poderia construir as civilizações? Tal perfil nos parece ser mais uma herança do pessimismo de Schopenhauer do que uma leitura científica da realidade sócio-política em visão filosófica. A visão filosófica, anterior a científica, deve buscar uma explicação racional e coerente, universal, a partir das miríades de dados que vão chegando aos sentidos, convalidados pelo tribunal da experiência, não o contrário. Os dados das experiências clínicas dessa fase positivista da psicologia de Freud, Jung e Lacan são importantes e valiosos para se ter uma idéia da dimensão e complexidade dos inúmeros parâmetros de avaliação da psique humana, extraídos de fragmentos seletivos e muito localizados do comportamento humano. Mas na hora desses psiquiatras fazerem diagnósticos mais gerais e universais, ao tentarem fazê-lo por teorias reducionistas foram, bem dizer, desastrosos: quando não reduziam a vontade humana a desejos fálicos e destrutivos, transformam a cultura humana num emaranhado de desejos frustrados e delirantes, todos subjugados pelo “inconsciente”... mas, e se o mundo não é tão ruim assim?
A cultura é resultado de uma imensa teia de relações costuradas simbolicamente por cada individuo em ações conscientes, desde as primeiras e mais decisivas relações, que são as relações de integração e unidade, como do amor de mãe para filho...Se em tais relações prevalecesse a disputa e a frustração não teríamos sequer uma infância para lembrar. O poder pátrio tinha me jogado pela janela na primeira briga familiar. A construção da cultura, inclusive a religiosa, das mais importantes por fornecer os significados últimos, é resultante de uma prodigiosa rede de relações conhecidas e muitas também desconhecidas, porém altamente efetivas, que mudaram o mundo, como o contato de Moises com a “sacha ardente” no monte Sinai, culminando com a travessia do mar Vermelho. Diálogo é um exercício dialético, de tensão entre pólos opostos, onde o ser vai se manifestando em contraposição ao não ser. O significado, de dimensões infinitas, sempre terá mais o que “dizer” ao significante, o ente limitado. Os conteúdos de maior significado, herdados por inúmeras gerações, são os que carregam mais potência de ser. Então os significados vão ganhando força expressiva e transpondo mares de dor e violência, com a evolução da linguagem corporal e verbal, começando pelo afeto familiar, o cultivo das amizades, as orações e oblações, e evoluindo na construção de bagagem prática e teórica adquirida paulatinamente com as Revelações, mais ou menos compreensíveis, o magistério, a tradição, os mitos, liturgias, os discursos, a representação teatral, a literatura e tudo o mais.
Com o advento do Iluminismo, o cristianismo perdeu muito de sua proposta original, de tomada de consciência do homem como ser para si mesmo, para o outro e para o infinito. Criaram-se os instrumentais de controle, e a esdrúxula disciplina da “engenharia social”, que acabaram por piorar as coisas. Agora filósofos do social como o Sr. Safatle (e muito outros do núcleo uspiano), cansados de buscar soluções sociologizantes, inúteis e perigosas, para as difíceis relações humanas de hoje, limitam-se a aprofundar leituras criticas, perfis de relações focadas nas crises e vão buscar elementos saudosistas em atitudes pouco mais que meramente convencionais dos gregos antigos para com estrangeiros. Na prática, um dos melhores exemplos de trato com o estrangeiro veio da cultura hebraica, principalmente depois da difícil mas proveitosa experiência do exílio. Após o retorno a Israel, Isaias convida seu povo a receber o estrangeiro. “E aos estrangeiros, que se unirem ao Senhor, para o servirem, e para amarem o nome do Senhor, sendo deste modo servos seus, todos os que guardarem o sábado, não o profanando, e os que abraçarem o meu pacto, sim, a esses os levarei ao meu santo monte, e os alegrarei na minha casa de oração.” (Is 56, 6-7). A Igreja cristã tem por modelo algo ainda maior, o de apostolado, ordenado por Cristo: enviai-os por toda parte, dois a dois, e pregai o evangelho. É o cristão se fazendo estrangeiro, vivendo com estrangeiros e comungando com eles, na medida em que eles O recebem. E ainda antes disso, a condição prévia elementar na cultura cristã é o da práxis familiar, dado pelo belo exemplo da família de Nazaré, lá onde a psique do filho e de seus irmãos, o seu mais próximo, são trabalhadas conscientemente, agregando valores sem limites “sociais”, apesar de toda violência imposta por gregos e romanos. Assim como as famílias cristãs asiáticas de hoje o são por parte de orientais comunistas, islamitas e hindus. Com a cumplicidade de intelectuais obtusos.
Após a fase dissecação da alma pelos positivistas, há hoje uma corrente da ciência psicológica muito mais coerente e integrativa com a condição do ser humano, como a da logoterapia de Victor Frankl, que busca trazer sentido a existência, apesar de toda a violência cultural e política, prática ou teórica, de russos ou brasileiros (os dois países mais violentos do mundo). Disciplinas novas como ontologia, gestalt, autopoise, presença (presencing), valor compartilhado (shared value), algumas das quais enriquecidas por culturas orientais, podem ajudar a trazer de volta o sentido de unidade perdido com a fragmentação das disciplinas e a falsa universalidade marxista, desde que não se percam em especificidades e ideologias fúteis e mantenham a necessária busca da unidade entre conhecimento e consciência – uma boa definição mesma de Filosofia.
Oriente e ocidente devem se unir mantendo suas forças culturais. Seriam estrangeiros entre si se fazendo companheiros de uma mesma nave, unidas pelo seu Mentor, no embate pelos mares turvos do devir.
Murilo Carlo Muniz Veras
Dezembro de 2011.
Links:
http://sergyovitro.blogspot.com/2011/12/vladimir-safatle-valores-ocidentais.html
Para saber mais dos últimos estudos sobre...:
.ontologia: tem um pequeno livro de Susana de Castro (ed. Zahar) que dá uma interessante retrospecto do tema. Para não se perder nas hetorodoxias da moda, como do processualismo de Whitehead (penúltima corrente apresentada), teria que ser complementado pela leitura de clássicos sobre a essência do ser como em Aristóteles, Tomas de Aquino, etc.
.gestalt: textos de Frankl, Moreno e Piaget. Entretanto este último deve ser visto com precaução
.autopoiese: artigos sobre sistemas biológicos e formação de consciência baseados em Maturama e Varela. Ressaltamos o aspecto autônomo dos entes biológicos que estes estudos trouxeram a tona.
.presença (presencing): trata-se de termo muito comum, mas de pouca atenção até recentemente. Um novo conceito vem ganhando espaço nas organizações americanas: presencing. Existe ate um Instituto com esse nome. Importa ressaltar, num contexto de tomada de consciência cristã, que toda referencia a esta atitude de consciência de algo muito superior a nós mesmos seria muito bem vinda num mundo marcado pela imposição artificial de cultura conflituosa. O termo foi desenvolvido inicialmente por Otto Scharmer com sua teoria U. Em resumo mostra a importância das diversas camadas de significados, no virtual (= potencial de ser), antes e depois da tomada de consciência ou presença no meio social, espiritual, etc. em que vivemos no devir (= atos de ser).
.valor compartilhado (shared value): outro conceito em voga nas organizações, depois do lançamento de A Quinta Disciplina, de Peter Senge. Segundo o Harvard Bussiness Review, o paradigma da criação de valor agregado – CSV, num mundo pluralista e globalizado, é um importante instrumento de medição dos valores que efetivamente importam em momentos de crise. Conforme últimas edições do livro (ed. Record?) a teoria U deve ser um passo seguinte na melhor compreensão desse processo (apêndice 3).
. valores orientais: Especialmente validos para alertar as falácias do positivismo mecanicista. Destacamos, em nosso contexto, Rene Guenon, autor de A Crise do Mundo Moderno, especialmente em seu diagnóstico sobre a mentalidade enraigada no ocidente (na verdade, mais precisamente, deve-se dizer, dos positivistas e cientificistas) de se medir o mundo por parâmetros quantitativos (metron na res extensa de Descartes).
